segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

No Brasil, a sexualidade na maturidade ainda é tabu

Antes de fazer 67 anos - no próximo mês de Março - gostaria de fazer muito sexo com um homem de quem goste. Foi com este anúncio descomplexado, publicado num jornal de literatura, que a americana Jane Juska, professora de Inglês aposentada, decidiu pôr fim a um jejum sexual que durava há três décadas.

Divorciada e com um filho adulto, Jane, então com 66 anos, recebeu respostas de 63 homens. Acabou por se envolver sexualmente com quatro. Um deles, garante, era a cara do ator David Duchovny, estrela de “Ficheiros Secretos” e “Californication”.

Relatadas no livro “Uma Mulher de Vida Airada - Memórias de Amor e Sexo depois dos 60″ (tradução brasileira), as aventuras de Jane são a prova de que o sexo não tem idade. Os estudos mais recentes comprovam-no.

Um trabalho realizado pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, revelou que cerca de três quartos dos homens e metade das mulheres na faixa etária entre os 75 e os 85 anos mantinham-se sexualmente ativos na altura em que foram entrevistados.

A autora do estudo, Stacy Lindau, afirmou ao Expresso que os resultados não a surpreenderam. “Há muitos anos que venho a estudar o tema da sexualidade na velhice e foi sem surpresa que descobri que muitos idosos são sexualmente ativos, vendo a sexualidade como uma parte importante da vida e abraçando o mesmo tipo de atividades sexuais praticadas pelos adultos mais jovens.”

No Brasil, o tema é ainda “quase um tabu”, admite a psicóloga clínica e sexóloga, Ana Carvalheira. “Quando os mais novos imaginam os seus avós a terem sexo, soltam risos e caretas, como se fosse uma coisa patética, no mínimo, difícil de imaginar”, afirma.

O médico Manuel Damas, co-autor do programa televisivo “Sexualidades, Afetos e Máscaras”, no Porto Canal, concorda. “A sexualidade não se gasta nem se esgota. Não deixo de amar, ou sequer de desejar, a partir do momento em que atinjo uma determinada idade.”

Esta visão algo assexuada da população idosa tem raízes socioculturais, convergem os dois especialistas. “Fomos criados numa sociedade em que o sexo é um privilégio dos mais novos. Dos novos e dos bonitos, com corpos magros, tonificados e atrativos”, refere Carvalheira.
É como se aos mais velhos estivesse interdito “o jogo misterioso que vai do amor de um corpo ao amor de uma pessoa”, acrescenta Damas, citando Marguerite Yourcenar. Não estranha, por isso, que o conhecimento sobre o comportamento sexual dos mais idosos seja ainda hoje limitado, focando-se, sobretudo, nas questões de desempenho e menos na atitude face à sexualidade.

É inegável que a percentagem de indivíduos sexualmente ativos diminui com a idade, mas o crescimento da população idosa impõe uma atenção cada vez maior aos seus comportamentos sexuais.

O aumento dos casos de infecção com o HIV na população com mais de 50 anos é a prova definitiva que este “é um grupo que tem sido esquecido nas campanhas de prevenção das doenças sexualmente transmissíveis”, conclui o psiquiatra Francisco Allen Gomes, que publicou o seu primeiro trabalho sobre sexualidade e envelhecimento “há mais de 30 anos”.

O sexólogo considera que a natural diminuição da função sexual ao longo dos anos não significa, contudo, que esta tenha que desaparecer. “Muitos idosos querem e são capazes de desfrutar de uma vida sexual ativa e satisfatória”, concorda Ana Carvalheira.

“Muitas mulheres de maior idade, por exemplo, experimentam satisfação sexual pela primeira vez nas suas vidas por causa de um novo parceiro, por um aumento na autoconfiança ou pelo desprendimento de antigas inibições ou hábitos”, afirma

Ainda assim, é justo reconhecer condicionantes que limitam o bem-estar físico e emocional, e podem levar à interrupção ou ausência de vida sexual ativa. Na cabeça, refere a psicóloga, estão fatores médicos. “O processo de envelhecimento está associado, naturalmente, ao aumento dos problemas de saúde.

A doença, e sobretudo, a medicação e os tratamentos, bem como a auto-estima diminuída em conseqüência do sentimento de debilidade, condicionam a sexualidade.” Sem surpresa, nota Allen Gomes, os estudos mais recentes mostram que a função sexual é, por isso, “mais satisfatória nas pessoas mais saudáveis, física e psicologicamente, e que mantenham relacionamentos afetivos”.

A própria manutenção da sexualidade, defende Manuel Damas, tem não só um “tremendo efeito fisiológico” como um “claro valor psicológico”. O sexólogo não nega a existência de alterações fisiológicas e de desempenho inerentes à idade - “até porque isso seria uma inverdade científica” -, mas considera que estas não têm de ser impeditivas ou condicionantes de uma sexualidade plena.

“Se aos 20 anos é possível correr 20 quilômetros e aos 40 correr 10, tal não significa que aos 70 anos não o faça ou sequer que se perca o prazer pelo ato de correr. Apenas terão de ser utilizadas novas estratégias para se conseguir e alterar as expectativas.” Trata-se, no fundo, de fazer uma “reengenharia de comportamentos” para poder abraçar o prazer “em qualidade e em dignidade”.

Para que os mais velhos possam viver livremente a sua sexualidade, remata Ana Carvalheira, é preciso também vencer os estereótipos socioculturais que alimentam a idéia de que eles “não têm interesse sexual, ou que os que se interessam pelo sexo são perversos, ou ainda que o sexo faz mal à saúde”. Até porque, conclui Manuel Damas, “todos nós seremos mais velhos um dia”.

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